Descoberto fóssil de uma baleia com quatro pernas no Peru, em clara transição evolutiva

Os cetáceos, grupo de mamíferos marinhos que inclui as baleias e os golfinhos, emergiram no Sul Asiático há cerca de 50 milhões de anos, evoluindo a partir de um pequeno ancestral terrestre quadrúpede (locomoção sobre quatro pernas) da ordem dos Artiodátilos (grupo de mamíferos ungulados com um número par de dedos nas patas). Vários fósseis de transição evolutiva já foram descobertos descrevendo a saída dos cetáceos do meio terrestre para o aquático. Aliás, junto com os dinossauros terópodes-aves, a macro-evolução dos cetáceos é uma das mais bem documentadas no registro fóssil e descritas, desde o nível genômico até o nível anatômico (1). Agora, os pesquisadores preencheram mais uma lacuna de transição evolutiva desses mamíferos, com a descoberta e a descrição de uma espécie anfíbia e quadrúpede de cetáceo que viveu há cerca de 42,6 milhões de anos. O estudo sobre o achado foi publicado ontem na Current Biology (2).

(1) Hoje, o mamífero terrestre que compartilha o ancestral comum mais próximo com os cetáceos são os hipopótamos. Para saber mais sobre a evolução dos cetáceos e sobre os mecanismos de evolução, acesse o artigo: A Evolução Biológica é um FATO CIENTÍFICO

Baleias anfíbias – ancestrais das baleias que se locomoviam bem tanto no ambiente aquático (marinho) quanto no ambiente terrestre – gradualmente se dispersaram para o oeste ao longo do Norte da África e chegaram na América do Norte antes de 41,2 milhões de anos atrás, em uma época quando os dois continentes estavam cerca de duas vezes mais próximos. No entanto, sobre quando, através de qual caminho, e sob quais habilidades locomotoras ocorreu essa dispersão é um tanto incerto devido ao limitado e fragmentado registro fóssil desse período específico. Nesse sentido, o novo achado dos pesquisadores, a espécie Peregocetus pacificus, um cetáceo quadrúpede datado do Eoceno Médio (~42,6 milhões de anos atrás) e escavado de depósitos marinhos no Peru, veio para esclarecer essa questão. O fóssil constitui inegavelmente o primeiro registro de baleia quadrúpede do Oceano Pacífico e do Hemisfério Sul, nesse caso pertencente à família Protocetidae.


Preservando a mandíbula e grande parte do esqueleto pós-craniano, essa baleia quadrúpede possuía uma cauda vertebrada com processos transversos bifurcados e anteroposteriormente expandidos, em uma anatomia similar à cauda de castores e de lontras-marinhas, o que sugere uma significativa contribuição da cauda durante o nado. Os movimentos propulsivos eram ou alternados ou pedaladas com os membros traseiros ou ondulações corpo e cauda, como observado em lontras. Somando-se a isso, a presença de pés largos com pés alongados e achatamento dorsoplantar das falanges com óbvias flanges laterais indicam dedos interligados (também observado nas ‘mãos’) que sugerem o uso ativo dos membros traseiros para o nado. Essas características típicas de mamíferos semi-aquáticos ilustram um estágio mais derivado na gradual mudança de uma propulsão baseada no arraste para uma baseada em suspensão nos primeiros cetáceos.

A proporção dos membros dianteiros e traseiros similar àqueles de baleias quadrúpedes geologicamente mais velhas na escala evolutiva oriundas da Índia e do Paquistão (como os gêneros Maiacetus e Rodhocetus), a pélvis firmemente anexada ao sacro, uma fossa de inserção para o ligamento arredondado sobre o fêmur, e a retenção de pequenos cascos com uma ponta anteroventral nos dedos indicam que o P. pacificus era ainda capaz de se levantar e até mesmo andar sobre o ambiente terrestre.

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Esse novo achado fóssil, portanto, demonstra que as primeiras baleias quadrúpedes atravessaram o Atlântico Sul e quase mantiveram uma distribuição círculo-equatorial com uma combinação de locomoção terrestre e aquática menos do que 10 milhões de anos após a emergência dessas baleias anfíbias e provavelmente antes de uma dispersão para o Hemisfério Norte em direção às altas latitudes da América do Norte.

Assim, os protocetídeos foram os primeiros cetáceos a se dispersarem tão longe quanto o Oceano Pacífico, colonizando a maioria dos mares epicontinentais em baixas latitudes, carregando membros traseiros ainda robustos, e somente cruzando o Trópico de Câncer ao longo da costa leste dos EUA. Os descendentes evolutivos dos protocetídeos, basilosaurídeos e as linhagens evolutivas modernas da superfamília Mysticeti (baleias de barbatana e parentes próximos) e a subordem Odontoceti (baleias dentadas ecolocalizadoras), então gradualmente migraram para mais longe no norte e no sul, para finalmente alcançarem uma real distribuição global.

(2) Publicação do estudo: Current Biology

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